Turismo em Portugal: da lógica do crescimento à criação de valor

Turismo em Portugal: da lógica do crescimento à criação de valor

O turismo português continua a revelar confiança, procura internacional e capacidade de gerar receitas. Mas os indicadores mais recentes mostram também uma mudança importante na forma como o setor olha para o futuro. A pergunta já não é apenas quantos turistas Portugal consegue atrair. É outra, mais exigente: que valor cria cada visita para as empresas, para os trabalhadores, para os territórios e para quem vive neles?

A 77.ª edição do Barómetro do Turismo do IPDT, dedicada às perspetivas para o verão de 2026, apresenta precisamente este ponto de viragem. O índice de confiança mantém-se elevado, mas a rentabilidade enfrenta pressão, os custos de viagem influenciam as decisões e o mercado interno mostra uma evolução mais prudente do que o mercado internacional.

Os dados interessam a todo o setor, mas são especialmente relevantes para projetos que pretendem desenvolver uma oferta turística integrada, sustentável e de maior valor acrescentado. Para um eco resort, um golf resort ou um projeto de hospitalidade ligado à natureza, o desafio não é competir apenas por preço ou volume. É criar uma experiência suficientemente diferenciada para gerar valor económico, territorial e social a longo prazo.

A ideia central do Barómetro #77: Portugal entra numa nova fase em que crescer continua a ser importante, mas a competitividade dependerá cada vez mais da capacidade de transformar cada visitante numa contribuição de maior valor para o destino.

Índice do artigo

Capa do Barómetro do Turismo IPDT número 77
Barómetro do Turismo IPDT #77: um setor confiante, mas focado em criar mais valor.

O que é o Barómetro do Turismo do IPDT

O Barómetro do Turismo é uma iniciativa do IPDT – Turismo, criado em 2006 para acompanhar regularmente as expectativas dos profissionais e especialistas do setor em Portugal. Ao longo de 77 edições, o projeto tornou-se uma ferramenta de leitura estratégica sobre confiança, procura, receitas, competitividade e desafios para a atividade turística.

Na sua 77.ª edição, o estudo reuniu 40 respostas válidas de um universo de 173 membros do painel do IPDT, entre decisores, líderes e especialistas do turismo português. Isto significa que o Barómetro não pretende substituir as estatísticas oficiais de atividade. A sua função é complementar esses dados com a perceção qualificada de quem toma decisões e acompanha o mercado no dia a dia.

Esta distinção é importante. Os dados estatísticos mostram o que aconteceu. Um barómetro de confiança ajuda a perceber o que os profissionais esperam que aconteça, quais os riscos que estão a observar e onde identificam oportunidades. Quando as duas leituras são combinadas, torna-se mais fácil tomar decisões de investimento, marketing, produto e sustentabilidade.

IndicadorResultado apresentadoLeitura estratégica
Índice de confiança80,0 pontos em julho de 2026Confiança elevada, apesar de um ligeiro recuo.
Mercado interno51% antecipam níveis de dormidas semelhantes ao verão de 2025Procura mais estável e consumo mais prudente.
Mercado externo62,2% antecipam crescimento das receitasMaior potencial internacional para procura e valor.
Reservas71% indicam reservas mais tardiasMaior necessidade de flexibilidade e comunicação de última hora.
Destino64% mostram preferência por destinos mais próximosO fator distância pode favorecer escapadas e viagens de proximidade.
Duração46% antecipam estadias mais curtasÉ necessário aumentar o valor da experiência em menos tempo.

Um setor confiante, mas mais prudente

O índice de confiança do setor fixou-se nos 80,0 pontos em julho de 2026. É um nível elevado, embora esteja 5,2 pontos abaixo do máximo registado em fevereiro de 2025. A leitura correta não é a de um setor em retração, mas a de um setor que continua resiliente e, ao mesmo tempo, mais atento às condições económicas e internacionais.

Índice de confiança do turismo português no Barómetro IPDT número 77
O índice de confiança mantém-se elevado, apesar de uma maior prudência do setor.

Esta prudência tem consequências práticas. Em contextos de maior incerteza, as empresas tendem a avaliar com mais cuidado o momento das reservas, a duração das estadias, os preços e a rentabilidade de cada operação. O crescimento da procura, por si só, deixa de garantir o crescimento dos resultados.

O que muda para as empresas:
  • O volume continua a ser relevante, mas precisa de ser acompanhado por margem e produtividade.
  • As experiências devem justificar o preço através de qualidade, diferenciação e conveniência.
  • Os destinos precisam de criar valor também fora dos períodos de maior procura.

Mercado interno e mercado externo: duas velocidades

Uma das conclusões mais claras do Barómetro é a diferença entre os mercados interno e externo. No mercado nacional, as perspetivas apontam sobretudo para estabilidade. O carrossel do IPDT indica que 51% dos especialistas antecipam um número de dormidas semelhante ao do verão de 2025. Na leitura oficial da edição, apenas 30,8% preveem crescimento das receitas do mercado interno.

Este resultado não significa que o mercado português tenha deixado de ser importante. Significa que o consumidor nacional está mais sensível ao preço e pode tomar decisões com maior antecedência, escolher estadias mais curtas ou optar por destinos mais próximos. Para as empresas, a resposta deve passar por criar propostas claras e relevantes, com diferentes níveis de duração, preço e experiência.

Perspetivas do mercado interno no Barómetro IPDT número 77
O mercado interno aponta para uma evolução mais estável e sensível ao preço.

No mercado externo, o cenário é mais positivo. Cerca de 62,2% dos especialistas antecipam crescimento das receitas provenientes de turistas estrangeiros. O Reino Unido, a Espanha e os Estados Unidos surgem entre os principais mercados emissores, seguidos de França e Alemanha. A oportunidade não está apenas em atrair mais visitantes internacionais; está em captar perfis com maior propensão para consumir experiências locais, prolongar a estadia e viajar fora dos picos tradicionais.

Perspetivas do mercado externo no Barómetro IPDT número 77
O mercado externo apresenta maior potencial para o crescimento das receitas.

O que esta diferença ensina

  • Para o mercado interno: proximidade, flexibilidade, preço transparente e propostas de curta duração.
  • Para o mercado externo: comunicação internacional, facilidade de acesso, experiências distintivas e serviço consistente.
  • Para ambos: uma promessa clara de valor, em vez de uma oferta baseada apenas em ocupação.

Custos de viagem e novas decisões dos turistas

Os custos de transporte e de viagem estão a influenciar o comportamento dos turistas. De acordo com a informação apresentada no carrossel do Barómetro #77, 71% dos especialistas identificam reservas mais tardias, 64% percecionam uma preferência por destinos mais próximos e 46% antecipam estadias mais curtas.

Influência dos custos de viagem nas decisões dos turistas
Os custos de transporte favorecem reservas tardias, destinos próximos e estadias mais curtas.

Estas tendências não devem ser interpretadas apenas como um problema de preço. Também revelam uma mudança na forma como as pessoas reduzem o risco da decisão. Reservar mais tarde permite esperar por melhores condições. Escolher destinos próximos diminui a exposição ao custo e à incerteza do transporte. Ficar menos tempo exige encontrar mais valor numa experiência compacta.

Para um destino, isto implica trabalhar a proposta antes, durante e depois da reserva. Conteúdos úteis, disponibilidade clara, política de cancelamento compreensível, propostas de fim de semana, experiências combinadas e comunicação direta podem reduzir fricção e aumentar a conversão.

Sinal de comportamentoRisco para o destinoResposta recomendada
Reservas mais tardiasMenor previsibilidade da ocupação.Atualizar disponibilidade e comunicação em tempo real.
Destinos mais próximosMaior concorrência entre regiões acessíveis.Valorizar autenticidade, facilidade e diferenciação.
Estadias mais curtasMenos tempo para gerar consumo local.Desenhar experiências integradas e fáceis de combinar.
Maior sensibilidade ao preçoPressão sobre margens e rentabilidade.Comunicar valor total, não apenas preço da noite.

A instabilidade geopolítica e a procura turística

O contexto internacional continua a pesar nas decisões de viagem. No carrossel do IPDT, 49% dos especialistas classificam o impacto da instabilidade geopolítica como moderado, 38% como significativo e 10% consideram que não existe impacto relevante. A leitura global é coerente com a notícia oficial da edição: quase nove em cada dez especialistas entendem que a instabilidade internacional condiciona as escolhas dos turistas.

Impacto da instabilidade geopolítica na procura turística
A instabilidade geopolítica continua a influenciar as decisões de viagem.

Portugal pode beneficiar da perceção de segurança e estabilidade, mas essa vantagem não deve ser tratada como garantida. O visitante compara destinos, preços, acessibilidade, qualidade do serviço e facilidade de organização. Um país seguro precisa também de oferecer experiências que justifiquem a escolha e que distribuam valor pelo território.

Esta é uma oportunidade para destinos com identidade própria. Paisagens naturais, cultura, gastronomia, bem-estar e atividades ao ar livre podem oferecer uma sensação de autenticidade e tranquilidade que responde a uma procura mais consciente. Mas a comunicação precisa de ser concreta: explicar o que o visitante pode fazer, em que época, com que duração e com que relação com a comunidade local.

“Criar mais valor” significa transformar a visita numa relação mais forte com o território, e não apenas aumentar o número de entradas.

Leitura editorial a partir do Barómetro do Turismo IPDT #77

De mais turistas para mais valor por visita

A grande mudança de linguagem do Barómetro está na passagem de uma lógica quantitativa para uma lógica de valor. Durante anos, o sucesso turístico foi associado a mais hóspedes, mais dormidas e mais visitantes. Esses indicadores continuam a ser necessários, mas não contam toda a história.

Citação de António Jorge Costa sobre turismo e criação de valor
António Jorge Costa, presidente do IPDT, sublinha a mudança de foco: crescer já não chega.

Um visitante pode gerar mais valor quando permanece mais tempo, escolhe uma experiência com maior qualidade, consome produtos locais, visita diferentes pontos do território, viaja fora da época alta ou regressa ao destino. O valor também pode aparecer na criação de emprego qualificado, na melhoria das infraestruturas, na conservação da natureza e na capacidade de tornar a região mais atrativa para viver e investir.

Para isso, é necessário abandonar a ideia de que qualquer crescimento é positivo em qualquer circunstância. Uma estratégia de valor pergunta: que visitantes queremos atrair? Que experiências podemos oferecer? Que recursos serão utilizados? Que parte do benefício ficará na região? Como mediremos o resultado?

Seis dimensões para avaliar o valor turístico

  • Valor económico: receitas, rentabilidade, compras locais e capacidade de investimento.
  • Valor territorial: distribuição da atividade por diferentes municípios e zonas do destino.
  • Valor social: emprego, qualificação, condições de trabalho e benefícios para a comunidade.
  • Valor ambiental: eficiência no uso de recursos, proteção da paisagem e redução de impactos.
  • Valor da experiência: qualidade, autenticidade, bem-estar, segurança e satisfação do visitante.
  • Valor futuro: resiliência, inovação, capacidade de adaptação e diferenciação internacional.

Oportunidades para o Porto e Norte de Portugal

Os dados regionais apresentados pelo IPDT reforçam a relevância desta discussão no Norte. O turismo na Região do Porto e Norte representa cerca de 2,4 mil milhões de euros e sustenta mais de 117 mil postos de trabalho. As dormidas passaram de 6,1 milhões em 2014 para 14,7 milhões em 2025, enquanto os proveitos cresceram 80% face a 2019.

O dado mais interessante para territórios fora dos grandes centros é a tendência de descentralização: cerca de 30% do crescimento das dormidas em 2025 ocorreu fora da Área Metropolitana do Porto. O Alto Minho registou um crescimento de 6,2%, o que mostra que a procura pode distribuir-se por regiões capazes de oferecer uma proposta própria.

Esta evolução não significa que todos os territórios beneficiem automaticamente do crescimento. É necessário criar ligações entre alojamento, natureza, gastronomia, cultura, desporto, bem-estar e empresas locais. Quanto mais completa for a experiência, maior é a possibilidade de aumentar o valor da visita e distribuir os benefícios.

Oportunidade para o Alto Minho: a região pode competir não apenas pelo número de camas, mas pela capacidade de oferecer experiências ligadas à paisagem, ao Rio Minho, à cultura, à gastronomia, ao bem-estar e a uma forma mais responsável de viver o destino.

O que esta mudança significa para projetos como o ECAART

Para projetos turísticos associados à natureza, ao golfe e à hospitalidade premium, o Barómetro do IPDT oferece uma orientação estratégica clara. O mercado pode continuar a crescer, mas os projetos mais fortes serão aqueles que conseguirem justificar o seu valor para além da ocupação e do preço.

1. O resort deve funcionar como uma porta de entrada para o território

Uma experiência premium não precisa de estar isolada. Pode ligar o visitante a percursos, natureza, cultura, gastronomia, produtores e atividades locais. Esta integração aumenta a autenticidade, distribui o consumo e reduz a dependência de uma única infraestrutura.

2. A sustentabilidade deve ser parte do valor percebido

A sustentabilidade não deve aparecer apenas numa página institucional. Deve estar presente na gestão da água, na arquitetura, na biodiversidade, na mobilidade, na escolha de fornecedores e na comunicação ao visitante. Quando existe documentação e monitorização, a responsabilidade ambiental pode reforçar a confiança do investidor e do turista.

3. O produto deve responder a estadias diferentes

Se as viagens tendem a ser mais curtas, a oferta deve ser fácil de compreender e de combinar. Um visitante pode procurar um fim de semana de bem-estar, uma experiência de golfe, uma escapada de natureza ou uma estadia mais longa com atividades para toda a família. A modularidade do produto ajuda a responder ao mercado interno e ao internacional.

4. O valor deve ser medido para além das dormidas

Além de hóspedes e noites, um projeto pode acompanhar receitas por visitante, duração média, consumo de serviços locais, emprego criado, compras regionais, sazonalidade, indicadores ambientais e satisfação. Esta visão ajuda a perceber se o crescimento está realmente a fortalecer o destino.

Para o ECAART, a conclusão deve ser trabalhada com base nos estudos e dados concretos do projeto. O posicionamento pode ser ambicioso, mas qualquer afirmação sobre sustentabilidade, impacto económico ou benefícios territoriais deve ser apoiada por informação técnica validada.

Conclusão: o futuro pertence a quem cria valor com propósito

O Barómetro do Turismo IPDT #77 não apresenta um setor parado. Apresenta um setor confiante, mas mais consciente dos seus limites e dos seus desafios. A procura internacional continua a oferecer oportunidades, enquanto o mercado interno exige propostas mais ajustadas, claras e competitivas.

Portugal entra numa fase em que a qualidade do crescimento será mais importante do que o crescimento isolado. Destinos, empresas e projetos turísticos terão de gerar mais valor por visita, proteger melhor os recursos, qualificar a oferta e mostrar de que forma contribuem para as regiões onde operam.

Para o Norte de Portugal, esta mudança abre espaço a propostas ligadas à natureza, ao bem-estar, à cultura, ao golfe e à hospitalidade responsável. A vantagem não estará apenas em atrair visitantes. Estará em criar razões fortes para que escolham a região, permaneçam mais tempo, consumam localmente e reconheçam o território como um destino com futuro.

Mensagem final do Barómetro do Turismo IPDT número 77
O desafio para Portugal é transformar o crescimento turístico em valor para os territórios.

Perguntas frequentes

O que é o Barómetro do Turismo do IPDT?

É um observatório regular de opinião criado pelo IPDT em 2006, que acompanha as expectativas de profissionais, decisores e especialistas do turismo em Portugal.

Qual foi o índice de confiança do turismo em julho de 2026?

O índice fixou-se nos 80,0 pontos, mantendo-se num patamar elevado, embora 5,2 pontos abaixo do máximo registado em fevereiro de 2025.

O mercado externo apresenta melhores perspetivas?

Sim. Cerca de 62,2% dos especialistas antecipam crescimento das receitas provenientes de turistas estrangeiros, enquanto o mercado interno revela uma evolução mais moderada.

Porque é importante criar mais valor por turista?

Porque mais visitantes não garantem automaticamente mais rentabilidade ou mais benefícios para o território. O valor deve refletir receitas, qualidade, emprego, sustentabilidade e impacto local.

O que pode fazer um projeto turístico no Norte de Portugal?

Pode diferenciar a oferta através de natureza, bem-estar, cultura, gastronomia, golfe e experiências ligadas à comunidade, acompanhando os resultados económicos, sociais e ambientais.

Fontes e referências

Compartilhe a postagem:

Notícias Relacionadas